Há atores que chegam a Hollywood ainda jovens, constroem uma carreira de décadas e envelhecem diante do público. Christoph Waltz viveu praticamente o caminho inverso. Quando seu rosto se tornou conhecido no mundo inteiro, ele já tinha mais de 50 anos, uma longa trajetória profissional e uma coleção de personagens que quase ninguém fora da Europa conhecia.
Nascido em Viena, na Áustria, Waltz completa 70 anos neste domingo (4). A idade, porém, conta apenas uma parte da história. Antes de se transformar no ameaçador coronel Hans Landa de "Bastardos Inglórios", o ator passou mais de três décadas trabalhando em teatro, cinema e televisão, sobretudo em produções europeias.
O próprio Festival de Cannes destaca que o primeiro filme de Waltz com Quentin Tarantino foi justamente o trabalho que o apresentou ao público mundial, depois de mais de 30 anos de carreira! O curioso é que essa longa espera não aconteceu porque Waltz estivesse parado. Ele trabalhava. Muito. O que faltava era a oportunidade capaz de fazer o mundo inteiro prestar atenção.
Waltz nasceu em uma família ligada às artes. Seus pais trabalhavam com figurinos e seu avô materno teve atuação importante no campo da psicologia. Ele estudou interpretação em Viena e também passou pelo Lee Strasberg Theatre and Film Institute, em Nova York.
Na Europa, construiu uma carreira principalmente no teatro e na televisão. Também passou cerca de 15 anos trabalhando em Londres, onde apareceu em produções britânicas e dividiu espaço com nomes como Kevin Spacey e Catherine Zeta-Jones. Ainda assim, seu nome não havia se transformado em sinônimo de estrela internacional.
Em entrevista ao The Guardian, publicada em 2015, Waltz contou que sua trajetória profissional teve "mais baixos do que altos". O ator chegou a ficar nove meses desempregado depois de abandonar uma companhia teatral e admitiu que, em determinado momento, a própria esposa levantou a possibilidade de ele procurar outra profissão. Eita!
Segundo ele, sua companheira dizia que poderia fazer qualquer coisa e perguntava por que continuava insistindo na atuação. Ele afirmou que levou a sugestão como uma ofensa. Não era exatamente uma vida de fracasso. Waltz conseguia trabalhar e viver da profissão. O problema era outro: ele ainda não havia encontrado o papel que transformaria experiência em reconhecimento: "Eu não devo a Tarantino minha técnica, mas devo a ele meu lugar".
A grande virada começou em 2008, quando Waltz foi chamado para fazer um teste para um novo filme de Quentin Tarantino. O projeto era "Bastardos Inglórios", longa lançado em 2009 e ambientado durante a Segunda Guerra Mundial. Tarantino precisava de alguém para interpretar o coronel Hans Landa, oficial da SS conhecido no filme pela inteligência, pela habilidade de manipulação e pela capacidade de transitar entre diferentes idiomas.
Não era um papel simples. Landa precisava falar alemão, francês e inglês com naturalidade, além de sustentar longos diálogos nos quais a cordialidade poderia esconder uma ameaça. Tarantino chegou a dizer que tinha dificuldades para encontrar o intérprete certo porque os atores que havia testado conseguiam dominar algumas características do personagem, mas não todas.
Durante uma coletiva no Festival de Cannes, o diretor contou que chegou a considerar abandonar o projeto caso não encontrasse o intérprete adequado. Até que Waltz entrou na sala. Tarantino lembrou que, depois de vê-lo ler duas cenas, pensou: "Estamos fazendo um filme!". Foi o momento em que uma carreira de décadas encontrou o papel que faltava.
Em "Bastardos Inglórios", Waltz não interpretou simplesmente um vilão. Hans Landa se tornou um dos personagens mais lembrados da filmografia de Tarantino, e boa parte do impacto vinha da maneira como o ator conseguia alternar gentileza, humor, inteligência e ameaça.
O personagem ficou conhecido como o "caçador de judeus", e sua primeira grande sequência já estabelece a lógica do papel: Landa é extremamente educado, mas transforma uma conversa aparentemente banal em uma situação de tensão.
A atuação chamou imediatamente a atenção dos festivais e das premiações. No Festival de Cannes de 2009, Waltz recebeu o prêmio de Melhor Ator. No ano seguinte, conquistou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pelo personagem. Aos 53 anos, aquele ator que durante décadas havia circulado entre produções europeias havia se tornado uma das grandes descobertas de Hollywood.
Depois de Bastardos Inglórios, Tarantino voltou a trabalhar com Waltz em "Django Livre" (2012). Desta vez, o ator não seria um oficial nazista, mas Dr. King Schultz, um dentista alemão que também atua como caçador de recompensas e ajuda Django, interpretado por Jamie Foxx.
Waltz ganhou novamente o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por sua atuação. Assim, em apenas quatro anos, o ator havia passado de uma figura praticamente desconhecida do grande público internacional a bicampeão do Oscar, com as duas estatuetas conquistadas por trabalhos dirigidos pelo mesmo cineasta.
Depois da parceria com Tarantino, os convites mudaram de escala. Waltz passou a trabalhar com diretores como Roman Polanski, Francis Lawrence, Tim Burton, Terry Gilliam e Wes Anderson. Interpretou personagens em filmes como Água para Elefantes, Deus da Carnificina, Grandes Olhos, O Teorema Zero e A Crônica Francesa.
Também entrou em uma das franquias mais famosas do cinema como Ernst Stavro Blofeld, inimigo de James Bond em 007 Contra Spectre e 007: Sem Tempo para Morrer.
A virada iniciada em 2009 não ficou presa aos anos seguintes a Bastardos Inglórios.
Em 2025, Waltz apareceu em Frankenstein, de Guillermo del Toro, interpretando Heinrich Harlander, um rico patrono das artes que financia os experimentos de Victor Frankenstein enquanto negocia armas durante a Guerra da Crimeia.
Em conversa com a Netflix sobre Frankenstein, o ator explicou que ele e del Toro chegaram a modificar características do personagem durante as filmagens. Para Waltz, o cinema é um processo vivo, que não precisa ficar completamente preso ao que estava escrito inicialmente.